sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A tatuagem

Capítulo 29 – The end's beginning 





[n/a: uma música vai tocar no final do capítulo ^^ quem quiser ir carregando: Shattered/Trading Yesterday]





Amanheceu. Com exceção de umas poucas pessoas, o mundo parecia bem.
- Pedro? – Rayana apareceu na cozinha sentindo um cheirinho bom de panquecas, Pedro estava de costas, no fogão.
- Oi Ray! Eu sei que não viro as panquecas tão sexy quanto você, mas espero que elas fiquem boas!
- Quem disse que não está sexy assim só de boxer?! – ela se aproximou e o abraçou por trás, começando a dar pequenos beijinhos na nuca dele em seguida. Pedro ficou nervoso com isso e deixou várias panquecas caírem no chão.
- Ai droga... – ele falou baixinho e Ray se afastou sorrindo.
- Pronto, agora estamos quites!
- Hey! Isso foi só de vingança?
- Yeah, baby! Você me fez derrubar uma panqueca uma vez, lembra? – ela falou rindo e ele se aproximou. Pegou Rayana pela cintura e a beijou antes que pudesse pensar... Ficaram se beijando até sentirem um cheiro de queimado. É isso, as panquecas que não caíram no chão agora estavam queimadas.
- Err... – Pedro coçou a cabeça meio sem jeito.
- Vamos lá pra casa! A Mel sempre compra uns donnuts deliciosos que vende lá perto...
- Ok! Então vamos logo porque eu to varado! – ele passou a mão pelo estômago e ela lhe deu um selinho, depois ele foi se vestir enquanto ela foi arrumar os cabelos.


Arthur dormia no sofá e a campainha começou a tocar histérica, ele tomou um susto e caiu no chão. ‘Porra...’ Foi só o que ele pensou ao abrir os olhos no tapete.
- Chay? O que quer? – ele atendeu com a cara amassada.
- Queria ver se você tem algum remédio pra dor de cabeça.
- Ahn... devo ter sim, entra. – deu espaço pro amigo entrar e fechou a porta, depois entrou no quarto com Chay atrás e foi até o banheiro.
- Cara, o que é tudo isso? – Chay observava todo o quarto enfeitado. Flores no criado mudo, uma parede com bilhetinhos coloridos pregados, ele viu até uma bexiga no teto e nem quis imaginar pra que ela serviria.
- Preparei porque, err... achei que Lua pudesse aparecer ontem. – ele disse fazendo careta. Voltou do banheiro com a cartela de remédios na mão.
- Puxa, que pena, cara. – Chay deu batidinhas no ombro dele e pegou a cartela – O que você vai fazer agora?
- Nada. Ela vai se mudar e preferiu passar a última noite com o Peter!
- Sério?
- É, eu vi o Peter na casa dela...
- E aí, rolou briga?
- Não, o filho da puta nem me viu.
- Então você já desistiu dela?
- Eu? Não... ela que desistiu de mim, ou talvez nem goste de mim tanto assim.
- Então vai deixar a Lua morar no Canadá pra sempre, sempre, sempre? – Chay falou a última palavra três vezes de um jeito exagerado e engraçado.
- Eu quero mais é que o Canadá inteiro se exploda, exploda, exploda! – Arthur repetiu os gestos do amigo e os dois acharam graça. Depois continuou normalmente – Vou tocar minha vida, me dedicar à banda e se de repente eu conhecer alguém legal, estamos aí...
- Hm, você me pareceu tão animado falando isso!
- É... eu devo estar com fome! Vem, vamos tomar café e depois eu volto aqui pra arrumar isso tudo.
Antes mesmo que pudessem chegar à cozinha, o telefone começou a tocar. Arthur se aproximou do aparelho e viu que o número era da casa de Lua. Ou era ela ligando ou era Melanie, já que só estavam as duas lá. Mais provável que fosse a segunda opção, mas no momento dava na mesma porque ele não queria falar com nenhuma.
- Ow Chay, vai procurando alguma coisa nos armários aí que eu vou atender aqui no quarto.


Melanie chegou no quarto de Lua e não a viu na cama, viu a porta do banheiro fechada, então pegou o telefone para ligar pro Arthur enquanto esperava.
Ele atendeu após vários toques e sabia que era ela.
- Que é Melanie?
- Que surpreendente a sua delicadeza pela manhã, Aguiar...
- Garanto que não tem nada mais surpreendente do que ser enganado por uma amiga.
- Do que você ta falando?
- Você me enganou, aquele melacueca tava aí e você não me disse! O que foi? O que a Lua fez pra te subornar?
- Ela não fez nada, ela nem me viu! Eu só não quis te contar tudo naquela hora porque você só ia ficar nervoso e...
- E por acaso você acha que é legal isso que você fez?
- Espera aí, mas que inferno! Eu te liguei pra contar agora.
- Num quero ouvir mais nada também.
- Sabe que você ta sendo o maior otário, né? Eu ainda sou sua amiga.
- De uma amiga que deixa o Ricardão fugir pela janela eu não preciso.
- Você acorda sempre insuportável assim? Coitada da Lua!
- É, coitada... ainda bem que ela vai pra bem longe!
- Ah, vai dá o cu! Depois eu te ligo.
Depois disso, Arthur desligou. Mel voltou a entrar no quarto de Lua, pôs o telefone na base e ficou pensando no que fez, se fez certo... Será que valeu a pena evitar uma confusão àquela hora da noite, com a Lu mais pra lá do que pra cá e ter uma confusão maior agora?
Ela sentou na ponta da cama pensativa e nem percebeu a amiga sair do banheiro.
- Oi, bom dia! – Lua sentou na beirada da cama ao lado de Mel.
- Bom dia, dormiu bem?
- Mais ou menos...
- Você se lembra de alguma coisa da noite passada? – Mel perguntou e Lua mordeu o lábio inferior olhando pros lados.
- Lembro que resolvi sair logo depois que vocês saíram.
- Você foi pra onde? Não falou que ia ficar em casa?
- Falei, mas o armário estava tão necessitado de guloseimas que me deu tristeza e eu saí pra andar na rua – ela deu de ombros e a outra encarou um pouco o chão. ‘Ela não assistiu, por isso não apareceu!’ Mel pensou e deu um pequeno sorriso de cabeça baixa.
- Então... você encontrou seu ex na rua, né? – falou voltando a olhar pra Lu.
- Uhum. – ela nem sabia como começar a falar sobre o que aconteceu de verdade. (In)Felizmente não havia muitos hematomas no rosto, Delilah atingiu mais o abdômen.
- Ahn. Ele falou que você bebeu bastante. Ele te trouxe pra casa?
- Trouxe, você o viu aqui?
- Vi. Você estava com ele, err...
- É... eu já lembrei, nem precisa comentar!
- Por que você o deixou se aproximar? Quis ficar com ele?
- Não. Eu tava bêbada e tonta, de repente o rosto dele chegou perto do meu e eu, sei lá, acho que pirei. Comecei a ver o Arthur... – Lua falou a última frase meio baixo, envergonhada em contar sobre a alucinação que teve e a amiga achá-la maluca.
- Own! Você viu o Arthur! Por que acha que isso aconteceu? Alguma coisa te fez lembrar dele?
- Tudo bem Melanie, é mais fácil você perguntar de uma vez se eu assisti a Cora!
- Ah... então você assistiu? – Mel ficou sem graça por não ter conseguido jogar indiretas que não fossem tão diretas.
- Uhum. Tinha uma tv ligada lá no pub onde fui.
- E...?
- Ai Mel... – o rosto dela se desmanchou. Uma fina camada de água foi surgindo na frente dos olhos enquanto ela mordia o lábio inferior. Apesar de ter amado tudo que Arthur fez, não gostava de lembrar daquela noite. – Aconteceu um monte de coisas e a única parte boa dessa porra de noite foi vê-lo na TV!
- Minha nossa! O que aconteceu?
- Foi assim... Eu assisti o programa no pub e vi a parte que ele cantou no parque. Eu ia lá.
- Você ia?! Que lindo ia ser! Por que não foi? Sua tratante, ficamos te esperando!
- Delilah me achou no meio da rua e ficou me atormentando.
- OMG! O que ela fez? Vocês brigaram?
- Por que quando eu digo que vi a Delilah todo mundo já pergunta se teve barraco?
- Porque é o que acontece, não é?
- É! – Lua admitiu com um risinho.
- Mas e aí? Você com certeza a deixou hospitalizada, não foi?
- Não Melanie... Dessa vez ela teve ajuda de amigos. Seguraram meus braços.
- AAA, MAS QUE FILHA DA PUTA!
- Quem? Eu? – Rayana apareceu na porta do quarto.
- Oi Ray! – Lua sorriu.
- É, você mesma! Devia ter vindo passar a noite aqui!
- Por quê? O que ta rolando? Quem é esse povo lá fora? O Pedro me trouxe aqui, mas nem conseguiu entrar ainda!
- Que povo? – Mel olhou Lu e ela deu de ombros. Rayana apontou a janela e as duas foram olhar. Quando viram tomaram um susto!
- Quem são essas pessoas? – Lua se virou pra Melanie, que estava chocada.
- E você vem perguntar pra mim? Isso é pra você! Olha as faixas, cabeça de couve-flor!
Havia mais ou menos trinta pessoas ocupando a rua, algumas seguravam faixas com umas frases. “Você é a fã #1” Lua leu em uma delas, “Faça um Aguiar feliz!” Melanie leu em uma outra.
- Gente, o que é isso?! – Lua ficou sem fôlego e a voz saiu baixa.
- É A LUA NA JANELA! – alguém gritou e deu pra ver flashs de câmera na direção delas, apesar da claridade do dia.
Lua e Melanie fecharam as cortinas rapidamente, assustadas.
- Será que eu devia descer? – Lua engoliu seco.
- Vai sim! Você tem fãs! – Mel começou a pular e bater palminhas, subiu na cama e Rayana quase a fez cair.
- Vai lá e ajuda o Pedro, please! – Ray pediu num tom de súplica que quase fez Lua rir.
Ela saiu do quarto e o telefone tocou após alguns segundos, Melanie atendeu. Dessa vez era o Micael do outro lado, queria saber da prima. Mel contou o que sabia.
Enquanto ela conversava com o Micael e Rayana escutava, Lu se arrumava um pouquinho no espelho da sala antes de abrir a porta. Quando abriu, se impressionou.
Parecia um choque maior ver as pessoas através da porta do que pela janela. Apenas duas garotas chegaram mais perto, as outras tiravam fotos pra todos os lados e outras tiravam fotos com Pedro.
- Oi, posso tirar uma foto? – uma menina ficou ao lado de Lua, a outra já estava segurando a câmera e tirou a foto antes que Lua tivesse alguma reação.
- É... quem... quem são vocês? – Lua perguntou meio desnorteada, enxergando apenas um borrão roxo, que segundos atrás era a luz do flash.
- Ah! Somos do...
- fã-clube do Arthur! – as duas responderam juntas, fofinhas.
- Certo, por que estão aqui mesmo? Vocês não deviam estar lá no apartamento dele? – perguntou como se fosse algo óbvio.
- Bom, – a garota que segurava a câmera abriu um sorrisão – a gente veio exigir que vocês dois fiquem juntos de uma vez! – ela disse sem desfazer o sorriso. Como se estivesse pedindo um presente ao pai.
- Mas... mas... – Lua não entendia nada.
- Ele só fica feliz se estiver com você, nós sabemos da história de vocês!
- Sabem? História?
- Uhum. Sabemos que vocês se conheceram pré-adolescentes, sabemos que fizeram tatuagens iguais, sabemos que se re-encontraram depois do colégio e sabemos que você o pegou com a ex dele, aquela nojenta. Mas sabemos também que ele te ama mais que tudo e o que nós queremos é vê-lo feliz! Nós vimos ontem, você precisa voltar com ele, Lua! E como boas fãs que somos, nos juntamos aqui pra te pedir isso!
- Wow... isso é... a coisa mais fofa que já vi! Que eu saiba, as fãs preferem que seus ídolos estejam solteiros! Não é? – Lua perguntou ainda um pouco confusa.
- Não em alguns casos, Lua... – a segunda menina também começou a falar – De que adianta um Arthur solteiro e infeliz? Ou pior, nas mãos de alguém como Delilah! A gente torce muito por vocês porque a história que tiveram não merece terminar assim!
- Ah... eu... eu sei! – ela tinha os olhos um pouco úmidos, não sabia se era por emoção, sono, dor, ou aquelas luzes de flash – Eu o amo muito também e garanto pra vocês que não vai terminar!
As duas garotas olharam pra trás, o resto do grupo prestava atenção e alguns assobiaram.
- Obrigada a quem veio aqui... eu preciso ir agora! – Lua entrou e enxugou uma lágrima no canto do olho, ao mesmo tempo que sorria sem acreditar. Permaneceu algum tempo encostada na porta fechada, esqueceu até do Pedro. Esse continuou distribuindo autógrafos.


- E aí! – Micael chegou no apartamento de Arthur e foi entrando porque a porta estava escancarada. Viu que Arthur e Chay comiam biscoito recheado e se juntou à eles.
- Fala Micael... – Arthur olhou pro amigo que puxava uma cadeira pra sentar.
- Ah, eu tava falando com a Melanie. Eu liguei agora há pouco.
- Hey! E você nem pra me chamar, cara? – Chay cruzou os braços.
- Se queria falar com a Mel, ligasse você mesmo, não é? – Micael falou e Chay ficou de tromba com um biscoito inteiro na boca.
- E por que você ligou? – Arthur perguntou tentando parecer desinteressado.
- Queria saber da Lua. Fiquei até preocupado com o que ela disse.
- O que foi?
- Primeiro Melanie contou que ela saiu ontem à noite.
- Hum... mas, ela...
- Sim, ela assistiu! Estava num pub. Mel contou que na hora que você terminou de falar...
- Espera Micael, não sei se quero saber dela.
- Ele quer xim, Micael! Voxê prexija ver como ele decorou o quarto, ficou uma gaxinha! – Chay, pra variar, de boca cheia. Arthur abaixou o olhar.
- Se é pra dizer que ela está de malas prontas pra viajar daqui a pouco não precisa nem falar Micael, eu sei reconhecer quando um jogo acabou e tudo o que eu preciso fazer é...
- Que droga Aguiar! Quer calar a boquinha, huh? – Arthur então parou de falar e olhou pra Micael – Ela ia até lá, cara! Só que Delilah a impediu.
- Delilah? O que ela fez? – Arthur perguntou depois de quase ter engasgado. Acabou de lembrar que viu no jornal que a Delilah estava morta. Isso ainda soava tão surreal.
- Parece que a Delilah teve ajuda de alguns amigos e acabou dando uma surra na Lu.
- Surra?! Como ela ta? Acha que eu devo ligar? Ir até lá?
- Ah, liga aí... – Micael pôs um biscoito na boca, enquanto Arthur encarava o mármore do balcão.


- Eii Lu! A Melanie acabou de me contar o que você contou pra ela! Desculpa, a gente nem imaginava o que você estava passando! – Rayana disparou a falar assim que viu Lua entrar no quarto.
- Ah, sobre a Delilah... – Lua deu uns passos arrastados até a cama e se jogou. Ela sentiu uma pontada na barriga e levou a mão até o local imediatamente.
- O que você tem? – Mel percebeu o jeito que Lu estava.
- São umas pontadas. Acho que a Delilah acertou alguma coisa aqui, eu tive essas dores à noite toda. Mas não se preocupem, já passou.
- Argh! Aquela barafonga! Barafonga mijona!
- Ray... não fica inventando xingamentos, usa os que já existem, flor!
- Não enche Melanie, eu to daquele jeito! Se eu cato aquela lá, não sei nem o que eu faço!
- É, eu também... Mas o que acontece agora, Lu? Se ela te bateu porque não queria que você fosse atrás do Arthur, então você não vai mesmo falar mais com ele?
- Não sei.
- Eu acho que ele merece que você enfrente a Delilah! Ela não vai te bater de novo, a sua mãe logo vai chegar e você tem a gente também pra te dar uma força! Eu acho que vocês dois merecem uma chance! – Ray terminou de falar entrelaçando os dedos perto do pescoço e curvando o rosto numa pose fofa.
- Eu acredito nele e no que ele disse... O problema é que eu tenho medo porque a Delilah não ameaçou apenas a mim!
- Como assim? Hey, você vai viajar ainda? – Mel lembrou de repente da viagem.
- Não sei também. – Lua encarava os desenhos no lençol como se as florzinhas fossem uma pintura muito surreal.
- Lu...
- Hum?
- Ele ficou esperando você ligar. – Ray falou e Lu sentiu um aperto no peito.
- Eu quis ligar. Eu quis ir... mas eu tinha coisas pra pensar antes de tomar essa decisão. Acho que escolhi o caminho errado ignorando a ameaça da Delilah.
- Ah, mas e daí? Ela te pegou, te deu uns soquinhos e você ta inteirona! Eu nem vejo machucados no seu rosto! – Melanie comentou de um jeito otimista.
- É que o foco dela não era o meu rosto. – Lua afirmou séria e as duas olharam pra ela meio desconfiadas. Enquanto olhavam, o quarto só não ficou em silêncio por causa das pessoas lá fora. O grupo de fãs já estava saindo porque alguns guardas apareceram, pois estavam congestionando o trânsito. Elas deixaram umas faixas no chão em frente à porta. O coitado do Pedro ainda estava sendo usado e abusado para tirar fotos.
- E aí, você vai explicar ou vai deixar a gente aqui nessa tensão?
- Err... ela queria acertar minha barriga.
- OMG! Será que ela quer que você fique mal do fígado? – Mel perguntou com uma cara assustada. Ray olhou atravessado pra ela e achou melhor nem comentar sobre o efeito que Chay estava fazendo nela. É uma treva essa mafagafização, pensou ela.
- Não, Mel... Meu fígado ta ótimo. Na verdade ela pensa em outra coisa.
- O que?
- É que talvez eu... esteja só um pouquinho, err... grávida.
- O QUÊ? OMG!
- P-pensando bem eu não sei, é que eu estou atrasada, sabe.
- OMG! – esse veio de Rayana. E foi um grito potente.
- E a minha ‘incomodação’ não é de atrasar!
- OMG! – esse de Melanie.
- Querem parar de falar My God e me dizer algo de útil?!
- OMG! Você tem certeza? Quer dizer... existe essa possibilidade?
- É, Mel. E a coisa ta tensa.
- Você disse que vocês dois não tinham... – Rayana movimentava uma das mãos antes de falar o verbo adequado.
- É, mas fizemos na praia.
- FIZERAM NA PRAIA?! O... – Lua tampou a boca dela quando ela ia dizer ‘oh my god’ de novo.
- Assim vocês estão me deixando mais nervosa! Eu nem sei se o que eu to falando é verdade, cara! De repente a minha ‘incomodação’ pode ter se tornado irregular de uma hora pra outra, isso não acontece?
- Acho que depende da menina, mas e aí?! Digo... vocês não se protegeram? – Rayana com um olhar zangado.
- Aham.
- Ah, então ta...
- É que eu acho que ela estourou.
- QUÊ? – as duas se surpreenderam.
- Só pode ser, né?! Eu até pensei nisso durante... bom, aquela hora!
- E você não disse nada? – Melanie se acabando de rir.
- Dizer o que? Ninguém imagina uma coisa dessas, numa hora como aquela! Eu não quis parar tudo por causa disso, achei que fosse impossível... E depois ele ia ficar nervoso, ia saltar pra longe de mim, perguntar se eu tenho tomado remédio e eu ia ter que dizer que não porque esqueci em casa!
- Então você não estava tomando?
- Não, né Ray! Eu tinha acabado de sair de um namoro traumático, o cara me chutou bonito, eu tava com a cabeça avoada, esqueci a caixa aqui em casa. E outra, não estava com ânimo, nem disposição, nem vontade de ter relações nem tão cedo, então relaxei mesmo!
- É, mas é bom sempre carregar essas ‘coisas’, porque a gente nunca sabe quando vai encontrar um parceiro de foda! Principalmente ao passar um mês na casa do primo bonitão... – Melanie comentou enrolando uma mexa de cabelo.
- Eii, o que você ta insinuando? Eu não to mais te reconhecendo, o que você fez com a Melanie? Cospe ela agora! – Lua sacudiu a amiga pelos ombros.
- Nada, me solta! – ela pediu rindo e ajeitando a alça da blusinha, que despencou na brincadeira – É que você e o Micael tiveram lá seus momentos também, né?
- Você está, por acaso, querendo perguntar se pode ser dele?
- Ah, foi você mesma quem fez a pergunta! Mas e aí? Pode ser?
- CLARO QUE NÃO! Imagina só, ele acabou de se acertar com a Soph! Isso ia acabar com todo mundo... Definitivamente não existe essa possibilidade, nós dois não chegamos à esse ponto!
- Ufa, ainda bem então...
- É! Olha, eu só trepei com dois caras nessa vida, o Pete e mais recentemente o Arthur. Então eu não sou o que se pode chamar de uma garota rodada. Se eu estiver mesmo, ah... você sabe o que, só pode ser dele, ok?
- Ok, desculpa aí, mas e agora?
- Agora eu vou torcer pra não ter acontecido nada depois da surra. A viagem vai depender de vários fatores, então talvez eu viaje, principalmente se a Delilah continuar botando meu filho em perigo. – ela fez uma pausa após dizer meu filho, não estava preparada pra isso. – Mas se eu viajar, com certeza vai ser outro dia. Hoje nem dá mais. Tenho que ligar pro Matt pra avisar! Preciso ir ao médico pra ver...
O toque do telefone interrompeu o que ela dizia.
- Melanie, atende aí? Você ta mais perto.
- Hm... Lu, eu acho que é o Arthur.
- Por quê? Como assim?
- É que eu falei com o Micael enquanto você estava lá fora.
Lua ficou pálida. O coração acelerado. Ao mesmo tempo que queria falar com Arthur, também queria pular essa parte.
- Contei que você assistiu o programa num pub e não foi ao parque porque a Delilah te impediu. A essa hora ele já deve ter ido fofocar com Arthur e só pode ser ele agora, todo preocupado! – Mel terminou de falar com um sorrisinho e Lua mordeu a própria boca. E o telefone tocando... De repente ele parou e Lua quis rir, imaginando um Arthur confuso, se arrependendo de ter ligado. Melanie e Rayana ficaram quietas por um tempo, esperando tocar de novo.
- Você já o perdoou mesmo? – Ray perguntou levantando-se da cama.
- Eu perdoei sim... – ela suspirou e pegou um travesseiro pra abraçar – E faz um tempo que penso nisso. Pegá-lo com a Delilah foi mais que tenso, foi traumatizante! Mas desde então ele tem feito de tudo pra corrigir. E eu acredito que ele não sente nada por ela, então por que não dar um voto?
- Ontem eu te vi com seu ex-namorado! Acho que você já se vingou dele. – Melanie apontou pra ela com um sorrisinho.
- Ah, aquilo foi diferente! Eu tava bêbada e ele se aproveitou.
- Nessas horas, o comportamento dos homens é equivalente ao das mulheres quando bêbadas, já parou pra pensar nisso? – Mel perguntou e Lua gargalhou.
- Você gosta de soltar pérolas, né? Filosofou agora...
Mal Lu terminou de falar e o telefone tocou de novo. Rayana deixou o telefone tocar menos dessa vez e entregou logo pra Lua. Ela respirou fundo, observando as meninas saírem e fecharem a porta. Depois atendeu.
- Alô – e ouviu uma respiração do outro lado.
- Err... Lua?
- Oi Arthur.
- Tudo bem com você? Me disseram que os amigos da Delilah bateram em você, é verdade?
- Os amigos me seguraram, quem bateu foi ela.
- Que seja, mas você está inteira? Por que ela fez isso? Que diabos!
- Eu to bem agora Arthur, não se preocupe. Ela queria que eu me mudasse...
Arthur ficou em silêncio porque a pergunta estava engasgada, ele tinha medo de fazê-la.
- E... você vai?
- Depende de algumas coisas.
- De que?
- De umas coisas aí...
- Porra, de que coisas?! Sou eu? O que você quer que eu faça?
- Não é você Arthur! Isso tem a ver com a Delilah!
- Lu, a Delilah está morta...
- Como é? – Lua nem acreditou no que estava ouvindo. Primeiro ficou feliz com a notícia e depois castigou-se mentalmente por ficar feliz com a morte de um ser humano.
- Eu vi no jornal hoje de manhã. Ela causou uma bagunça pela cidade e devia estar drogada, então teve um treco. Você não estava com ela?
- Sim, mas na hora em que ela estava comigo parecia normal. Bom, eu espero que ela descanse em paz.
- É.
Lua ainda digeria a morte da Delilah e as conseqüências disso. Perguntava a si mesma se o plano da viagem poderia ser adiado agora... Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos que pareceram eternidades. Esse silêncio estava corroendo feito ácido até que Arthur precisou falar o que estava preso.
- O Peter soube cuidar bem de você? Por isso ele mereceu ter uma despedida?
- Peter? Despedida?
- Não finja que não sabe!
- O que? O Peter me encontrou naquela situação e me trouxe pra casa, só isso. Agora esse negócio de despedida que você ta dizendo aí eu não sei.
- Ah ta, ele te encontrou lá... Muito conveniente, né? Primeiro ele te salvou da Delilah e depois mereceu uma recompensa? POR QUE ELE PRECISOU IR ATÉ O SEU QUARTO, HEIN LUA? POR QUE A MELANIE NEM DEIXOU QUE EU O VISSE? Ela deve ter pego vocês em alguma situação bem comprometedora... num é? Será que ele estava sem roupa?
- Que perguntas são essas? Agora é você desconfiando de mim? Cadê aquele cara que tava no programa ontem? Ele sumiu depois que você tomou banho?
- Ele sumiu depois que o bilhete do Peter se confirmou.
- Você não ta falando coisa com coisa. E essa agora de bilhete?
- Ele me deixou um bilhete, o próprio Peter! Dizendo que você não iria até lá porque preferiu ficar com ele. Como você quer que eu fique depois disso? Eu venho aqui e vejo o filho da puta saindo da sua casa! Porra! – Arthur estava se exaltando e dava pra ouvir a respiração fora de ritmo. Sem nenhuma explicação lógica, os olhos de Lua voltaram a ficar aguados com esses gritos, não queria brigar com ele. Respondeu com a voz firme, porém calma e sem gritos.
- Não sei nada de bilhete. Só sei o que já disse, ele me trouxe e eu não estava bem. Cheguei a ver que a Melanie estava parada na porta e apaguei. Peter deve ter me segurado pra não cair no chão. Depois disso eu nem vi a hora que ele foi embora. Não vou me chatear se você não acreditar em mim. Eu também não acreditei em você e olha no que deu...
- Lua, hm... tudo bem vai. Eu não quis gritar. Me desculpe, foi diferente. Eu não tinha bebido aquele dia, não tinha apanhado! Deixei que ela me agarrasse... eu sei que fui patético. Não te culpo por não querer me ver mais.
- Então a questão Pete já foi resolvida?
- Só preciso saber o que é que você sente por ele. Diz a verdade!
- Gosto dele. – Lua sentia-se como se estivesse transpirando, mas passou a mão pela testa e estava seco.
- Gosta? – de repente ele se sentiu meio sem chão.
- Gosto, ou pelo menos não odeio... Quer dizer, eu me acostumei com a companhia dele e tal, mas era uma coisa que não me completava. Existe um grande espaço vazio dentro da gente, assim como nos computadores... Tudo que a gente guarda na nossa memória ocupa um espaço. Peter era como um aplicativo leve que não ocupava quase nada desse espaço e agora que você falou essa coisa de bilhete ficou tudo tão confuso que eu acho que acabo de mandá-lo pra lixeira.
Arthur riu da comparação com um computador e sentiu o clima da conversa aliviar. Não tinha mais dúvidas, pra ele já estava tudo certo.
- O que eu seria?
- Acho que você é um dos arquivos mais pesados. Levaria um tempo pra te transportar pra lixeira!
- Tipo um Photoshop CS1500? – um jeito infantil e divertido invadiu a voz dele. Lua sempre se derrete quando isso acontece.
- Tipo uns dez desses.
- Eu também não poderia te apagar nem que quisesse. E olha que eu já quis... mas já ta confirmado que eu não consigo viver sem você e uma tigela de brigadeiro! Me dá outra chance de consertar meus erros. Vou me comportar da melhor forma, prometo!
- Agora que você já bateu no meu ex e eu já bati na sua ex, ficaria até feio se nós não ficássemos mais juntos! – ela falou e deu uma risada meio desengonçada por causa da falta de ar que estava sentindo.
- Yep! Vem pra cá! Tenho uma surpresa, quando chegar no meu apartamento pode entrar, depois fecha a porta e vai direto no meu quarto. De que flor você mais gosta? Vou comprar! – Arthur falou tudo meio rápido, com um entusiasmo à mil.
- Imagina! Não precisa disso!
- Diz aí mulher!
- Ah, eu gosto de todas, mas você sabe que eu tenho uma queda por dentes-de-leão! Acho irresistíveis aquelas sementinhas voando de pára-quedas!
- Hum, ta bom então. Só não garanto que vou achar isso aí!
- São sementes que se espalham, Arthur! Você acha em qualquer lugar... Ah, saiba que eu só vou até aí porque me pediram ta! – Lua estava rindo, mas de uma hora pra outra sua respiração estava ficando cada vez mais difícil.
- Ah é! Quem?
- Esquece... deixa pra lá, quando eu chegar aí te conto isso e outras coisas mais importantes! – ela pegou um impulso pra levantar da cama, uma dor estranha queimava na barriga e aquela tontura aumentava como se ela estivesse bêbada. Ao ficar de pé e olhar pra cama viu uma mancha de sangue e se assustou – Ai droga! – ela falou meio ofegante ao telefone sentindo as pernas fraquejarem e pontadas no pé da barriga.
- Que foi Lu? O que ta acontecendo aí?
- Não... não sei que porra é essa! – ela respondeu com a voz fraca porque já estava sem fôlego pra falar e completamente assustada. Estava se apoiando no criado mudo porque suas pernas pareciam não agüentar totalmente seu peso e no momento em que sentiu as forças abandonando seu corpo, ela caiu arrastando junto vários objetos que estavam em cima do criado mudo. O telefone caiu da mão dela e escorregou pra baixo da cama. O barulho das coisas caindo foi notável e Melanie logo chegou ao quarto. Depois de vários surtos ela pegou Lua pelos braços e começou a arrastá-la em direção à porta. Quando viu que a garota estava deixando um pequeno rastro de sangue, se assustou ainda mais. Arthur gritava por Lua ao telefone, mas viu que ninguém ia responder nada e desligou. Começou a andar de um lado pro outro sem saber como agir.


Pedro finalmente havia conseguido entrar na casa. Uma das fãs que estava lá fora enquanto ele tirava algumas fotos ouviu o estômago do pobre garoto e passou na padaria para comprar uma esfiha.
- Puxa Pedro! Finalmente você conseguiu sair do meio daquelas meninas que querem te roubar de mim! – Rayana abriu a porta pra ele e o observou sentar no sofá com um finalzinho de esfiha na mão. Ela segurava um pão com peito de peru.
- Se continuarem me dando esfihas assim, vão me roubar mesmo!
- Hein?! Como é que é a história aí?
- Você me deixaria morrer de fome! Elas vão me roubar pelo estômago... – Pedro cruzou os braços e se fez de triste.
- Tudo bem, o estômago não é o órgão mais importante do seu corpo pra mim, elas podem ficar com ele. – Rayana começou a cutucá-lo fazendo cócegas e foram interrompidos por um grito de Melanie.
- RAY, PEDRO ALGUÉM ME AJUDA AQUI!
Os dois ficaram se olhando com as testas franzidas, meio assustados. Melanie não demorou a aparecer na escada.
- O que foi Mel? Que cara é essa?
- Vem que você vai ver! – ela puxou Pedro pela mão quando ele se aproximou e Ray foi atrás dos dois sem entender nada.
- LU! O que aconteceu com ela? – Pedro se assustou ao chegar na porta do quarto.
- Aaaa! Tem sangue! Que porra é essa? – Rayana escondeu o rosto no braço de Pedro.
- Eu não sei, mas precisamos levar pro hospital!
- Vamos logo então! – Pedro foi até Lua e a carregou no colo até a sala. Rayana tentava não observar a mancha vermelha na calça dela, era fraca pra ver sangue.


- ACONTECEU ALGUMA COISA COM A LU! – Arthur segurava o telefone numa mão e o celular na outra. Entrou gritando no apartamento de Micael, que jogava video game com Chay.
- Porra Arthur! Me fez perder com essa gritaria! – Micael jogou o controle no sofá enquanto Chay gargalhava da cara dele.
- Mas é que é sério! Aconteceu alguma coisa e eu não sei o que é!
- O que foi cara? Ligou pra ela ou não? – Micael levantou enquanto Chay ainda tomava ar.
- Liguei, a gente tava conversando numa boa e do nada ela começou a ficar estranha! Depois um barulho enorme como se o telefone tivesse caído no chão e ela ficou quieta...
- Ficou quieta?!
- Ficou quieta!
- Tipo... quieta?
- ÉÉ, CALADA, MUDA! VOCÊ QUER UM DESENHO DE UMA PESSOA QUIETA?!
- Calma cara! Perdeu a linha? Já ligou pro celular dela?
- Já, ninguém atende...
- Liga pro celular da Melanie, ela deve saber te explicar o que aconteceu! – Chay chegava da cozinha com uma latinha de coca-cola.
- É! Boa idéia! – Arthur começou a procurar por Mel na agenda do celular.
- Oi Arthur! Ouvi você falar da Lua ou foi impressão minha? – Sophia veio do quarto com uma toalha secando os cabelos e vestindo uma blusa de Micael que ficava no joelho dela.
- Soph, goiabinha... Não é por nada não, mas o condomínio inteiro ouviu o Arthur falar da Lu agora! – Chay passou um braço pelos ombros dela sorrindo. Sophia movimentou o corpo pra tirar o braço de cima.
- É sim, é porque eu tava falando com ela e acho que aconteceu alguma coisa, mas to ligando pra Melanie pra saber.
- Tomara que seja alguma bobagem... – Micael cruzou os braços. Não ouviu o barulho que Arthur descreveu, mas estava começando a ficar preocupado também.


Depois que Pedro, Rayana e Melanie chegaram ao hospital, tiveram que ficar numa salinha de espera enquanto Lua foi levada por uma enfermeira. Ela foi colocada numa maca e levada às pressas, desacordada. Os três esperavam curiosos pra saber o que ela tinha.
- Você chegou no quarto e ela já tava lá caída? – Rayana perguntou.
- Não, eu que dei uma facada nela... – Mel sorriu irônica – Mas claro, né Ray, ela tava lá no chão. Aliás, ela estava ao telefone com Arthur, talvez ele saiba o que aconteceu! – ela lembrou de Arthur e começou a procurar o celular nos bolsos da roupa. Ligou o aparelho e viu que Arthur já tinha mandado algumas mensagens pra ela.
- É... pelo jeito ele sabe menos do que a gente! – Melanie sorriu nervosa após ler os torpedos e resolveu ligar pra ele.


- Ah! Oi Mel! Eu tentei te ligar! O que aconteceu aí?
- Olha, eu nem sei viu... Só sei que cheguei no quarto e a Lu tava caída lá!
- Então ela só apagou? É a pressão? O que é?
- Hey, eu não sou a médica! Sim, ela apagou e caiu, só que deve ter se ferido na queda e...
- E...?
- E... – Melanie não sabia como dizer ‘estava ensangüentada’ sem parecer assustador – deve ter se cortado em algum objeto pontiagudo.
- ESTÁ PERDENDO SANGUE?
- Calma muleque! Ela ta sendo atendida.
- Ahn... estão no hospital?
- Sim, você pode vir, estamos no St. Thomas.
- Por que vocês escolheram um hospital do outro lado do mundo? Puta que pariu!
- Não é tão longe assim! É mais perto da nossa casa. Você sabe vir, né?
- Sei.
- Ah, Arthur...
- Hum?
- Ainda está chateado comigo?
- Ah, não sei... acho que só vou te perdoar quando você fizer cookies pra gente de novo!
- Mas que interesseiro!
- Não, é sério agora, você é uma ótima amiga pra mim e pra Lu. Eu seria um otário ficando chateado com você!
- Obrigada – Melanie abriu um sorriso grande – Agora pára de ficar falando no celular e dirige pra cá!
- É! To indo! – Arthur se despediu com uma agitação notável na voz e desligou o aparelho. – Está no hospital, to indo lá!
- LU NO HOSPITAL? CARALHO! Eu vou me vestir e vocês vão primeiro que eu vou depois! – Sophia se levantou do sofá ainda vestida com roupas de Micael.
- Então eu vou com você e Sophia e Micael vão depois. – Chay se levantou e acompanhou Arthur até a porta. Micael também foi se vestir, pois estava apenas de bermuda.
No hospital nenhum dos médicos havia aparecido ainda pra dar satisfações. Enquanto isso, o carro de Arthur corria a uma super velocidade de 10km/h.
- Eu não acredito que tem um caminhão tombado lá na frente. MAS QUE MERDA! – Arthur acertou um soco de esquerda no volante. Se ele fosse uma pessoa ficaria roxo.
- Se controla, cara! Mais cedo ou mais tarde a gente chega.
- MAS EU QUERIA CHEGAR ONTEM!
- TA CERTO ENTÃO PASSA POR CIMA DE TODO MUNDO, SR. ATRASADINHO! – Chay zoou um pouco e viu que o amigo tinha o olhar fixo em alguém que passava na calçada. Ele virou o pescoço pra ver o que Arthur estava olhando e tentar adivinhar a maluquice na qual estaria pensando.
- Hey, por que você ta com essa cara?
- Chay, você fica no carro.
- Você vai sair? Ficou maluco?
- Maluquice é ficar aqui! E não discute! – Arthur apontou o dedo pra ele erguendo suas sobrancelhas. Chay pulou pro banco do motorista depois que o amigo saiu. Ficou observando-o passar à frente do carro e abordar uma senhora na calçada.
- Mas que diabos? – Chay sussurrava consigo mesmo observando a cena.
A senhora devia ter entre 50 e 60 anos. Andava de bicicleta com uma menina que parecia ter 7 anos ao lado. Provavelmente a neta...
- Oi moça! Pode me emprestar sua bicicleta? Obrigado! – Arthur foi tomando a posse da bicicleta, aproveitando que a senhora ainda não estava acreditando que foi chamada de moça. E por Arthur Aguiar! Suas filhas e a neta provavelmente ficariam loucas... Já montado na bicicleta, ele deixou um dinheiro na mão dela. A "moça" permaneceu observando-o se distanciar boquiaberta.
Ele pedalou forte na bicicleta e teve sensação de liberdade com aqueles ventos no rosto. Segurou-se para não rir dos motoristas otários presos em seus carros.


***
- Olá, boa tarde. Vocês são parentes de Lua Blanco?
- Erm, somos irmãs dela. – Rayana se levantou da cadeirinha onde estava sentada. Melanie levantou em seguida e Pedro estava chegando do banheiro.
- Eu sou o Dr. Burtton – ele estendeu a mão e cumprimentou os três – Podem voltar a sentar-se. A Lua chegou aqui num estágio avançado e, bom... eu sinto muito, não teve como salvar.


Arthur’s point of view ON


Eu cheguei ao bendito hospital de bicicleta mesmo. Vivo e sem atropelar ninguém! Isso é um fato a se comemorar...
Logo eu vi o Pedro fumando próximo à entrada. Ele só fuma quando está muito (muito, muito, muito) nervoso! Mau sinal?
- Hey cara, o que faz aqui fora?
- Uau, que bicicleta é essa? – eu percebi a intenção de desconversar e fui direto ao assunto.
- Comprei. Cadê a Lua? O médico já deu notícia?
- Olha, cara... eu não sei dizer isso, é que...
- Ta... Me diz então o número do quarto!
- 1209.
Mal ele terminou de falar e eu já estava praticamente lá. Por que diabos ele se embananou pra me responder? Eu não to gostando disso!


- Oi... me disseram que é aqui o quarto da Lua. – cheguei num quarto onde uma enfermeira estava ao lado de uma cama, cobrindo o rosto de uma pessoa com o lençol. A cama ao lado estava vazia. Eu já ia dar meia-volta porque certamente não era esse o quarto, mas a enfermeira falou comigo.
- Ohh, você é parente? – ela veio até mim e me olhou com uma cara de pena que não entendi.
- Sou namorado, quer dizer, vou pedir quando ela sair do hospital! – dei meu melhor sorriso e a enfermeira apertou a mão contra o próprio peito fazendo mais cara de dó ainda. O que há de errado com meu sorriso? Por acaso tem uma alface gigante nele? Eu uso fio dental, viu?
- Sinto muito senhor...
- Sente? Pelo quê?
- Fizemos... fizemos o que podíamos, mas infelizmente, ela... err...
- FALA LOGO – porra, eu to perdendo a paciência!
- Acaba de falecer. Se o senhor tivesse chegado quinze minutos antes ainda dava tempo de vê-la. – ela disse finalmente e eu acho que não ouvi direito. Fiquei parado. Que porra é essa, alguém pode me dizer?! Acabei de falar com ela no telefone caraí... os anéis castanhos de meus olhos assustados corriam pelas paredes beges do quarto. Elas pareciam estar se aproximando de mim, pra me deixar trancado pra sempre.
- Como assim? Aaah, você ta brincando comigo! Cadê a câmera escondida? É algum programa de tv pregando peça, não é?
- Por Deus! Nós não brincaríamos com uma coisa dessas! Aceite o fato senhor, está doendo em mim dizer isso também, mas ela não está mais entre nós. – a mulher se aproximou, pôs uma das mãos no meu ombro e falou olhando firmemente nos meus olhos. Em seguida abaixou o olhar e caminhou em direção à porta do quarto. Antes de sair virou pra trás e olhou de novo pra mim, eu permanecia imóvel como um armário. – Eu vou te deixar ficar uns minutos a sós com ela. Avise aos outros familiares sim...


[n/a: pode tocar a música *-*]
A enfermeira saiu e eu só lembrei que sou um ser vivo quando precisei piscar os olhos. Estava tenso demais e passei a mão levantando os cabelos da testa. Depois esfreguei todo o rosto pra ver se eu poderia me fazer o favor de acordar do pesadelo. Eu ainda não podia acreditar!
Fui me aproximando da cabeceira da cama com passos lentos. Toquei de leve a ponta do nariz dela por cima do lençol. Meu coração estava disparado como se eu pudesse vomitá-lo a qualquer momento... Peguei a borda do lençol no topo da cabeça dela, mas estava sem coragem de descobri-la. Minhas mãos estavam suando frio e às vezes eu apertava os olhos, tentando acordar. Não é possível que eu não esteja dormindo!


Arthur’s point of view OFF


Arthur não conseguia abaixar nem um milímetro do lençol branco. Era como se o tecido estivesse queimando em sua mão e ele não conseguia sequer tocá-lo.
- Levante a porra do lençol, covarde filho da puta! – Arthur falou pra ele mesmo e se afastou do leito com as mãos na cabeça. Os olhos estavam tomados por um vermelho-melancia, e cheios de água.
- Como você pôde perder a mesma mulher tantas vezes Arthur? Você é um bosta. Eu sou um bosta! Era pra eu estar aí! Eu!
Arthur deixou o quarto sem conseguir olhar a pessoa por baixo do lençol.
Ele passou pelo corredor com passos rápidos, queria se esconder de todos e dele mesmo. Abriu a primeira porta que percebeu ser diferente das portas dos quartos. Deu de cara com uma escada e começou a subir sem pensar onde ela daria.
Não demorou muito pra chegar ao terraço. Ele diminuiu o ritmo dos passos e foi andando enquanto tomava um fôlego. O vento frio parecia nem fazer efeito na pele do rosto quente. Ele parou de caminhar antes de ficar muito perto da beirada. Percebeu que apenas as partes mais altas da cidade ainda recebiam a luz pálida do sol, como os terraços dos prédios, por exemplo. Se Lua estava mesmo morta, ele gostaria de ficar ali. Mais perto do céu.
Arthur estava com o rosto virado pra cima e olhos fechados. Algumas lágrimas escorregavam pelas laterais. Foi quando ele sentiu uma cócega na bochecha. Abriu os olhos e pegou uma coisinha branca em seu rosto, era uma semente de dente-de-leão. Observou que havia um pouco dessas flores plantadas num pequeno canteiro. Lembrou-se que Lua sempre achou os pára-quedas das sementes umas coisinhas mágicas. Então pegou uma delas, parecia um cabo com uma bola de pelos em cima. Ele assoprou e logo vários flocos brancos flutuavam ao redor dele com leveza.
Distraiu-se tanto com isso que não percebeu a presença de alguém. A porta enferrujada que dá acesso ao terraço fez o mesmo rangido de quando ele a abriu. Lua estava próxima à porta. Chinelos brancos, a camisola branca de hospital, cabelos soltos. Até sua pele vestia branco, estava um pouco pálida.
Ela o observou por um tempo de costas. Fascinado, assoprando dentes-de-leão.
Com pequenos passos, ela se aproximou um pouco mais e retirou do pulso a única coisa que não era branca em seu visual, uma pulseira. Pulseira que Arthur conhecia bem. Arremessou o objeto num lance rasteiro. A pulseira voou baixo até chegar perto dos pés de Arthur. Ele não viu logo, pois estava olhando pra cima, acompanhando com o olhar cada sementinha que voava. Porém uma delas não quis voar pra cima e foi caindo. Arthur tentou pegá-la antes que caísse no chão, mas foi tarde demais, ela caiu bem no meio da circunferência que a pulseira fazia no chão. Ao se dar conta, só faltou ter um treco! As pernas ficaram moles e as mãos tremiam também.
Ele se abaixou lentamente para pegar. Sentia o coração bater como se alguém estivesse dançando rebolation dentro dele. Lua assistiu tudo sem falar nada e apenas sorriu quando Arthur virou pra trás e olhou pra ela.
Ele começou a soluçar, Lua pôde notar a metros de distância. Arthur deu o primeiro passo como se estivesse em cima de uma corda bamba, ele sentia que suas pernas pareciam gelatina. Depois do primeiro passo foi mais fácil, ele começou a andar cada vez mais depressa e largou o cabinho da planta que segurava com uma das mãos, ficando apenas com a pulseira na outra.
Lua também caminhava na direção dele, mas se sentia fraca demais pra andar muito rápido. A maior distância foi percorrida por ele, que logo chegou e a abraçou. Ela ficou com o queixo apoiado em seu ombro, sentindo o perfume dele fazer festa dentro dos pulmões. Não estava chorando, ao contrário dele, que se acabava.
- Lua! Lu! – Arthur espalmou cada mão em uma bochecha da garota e movimentava o rosto dela formando caretas.
- Paa ji tefomar meu roxto, Arthur!
- É que eu preciso saber se você é de carne e osso! Isso aqui não é nenhum encontro espírita não, né?
- E você ta me achando com cara de quem desce em qualquer mesa branca? – ela brincou e logo ficou séria. Pegou a pulseira do pulso dele e colocou em seu braço de volta. – Mas falando sério agora Arthur... O que deu em você?
- O que quer que seja, agora eu não quero lembrar!
Lua viu os olhos castanhos de Arthur mirando seus lábios e agora sim eram realmente os olhos dele. O beijo aconteceu calmo pra ela e desesperado por parte dele. Arthur podia quase escutar o barulho dos cacos de seu coração sendo lindamente colados e recolocados no lugar enquanto ia tocando a boca dela.

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